ENTRE ESPINHOS E ROSAS: A VONTADE DE DEUS I (Biografia)

Como falarei da direção de Deus na minha vida? Não foi normal, mas foi assim que eu entendi.

Como disse na parte anterior, quando me conheci como gente, estávamos morando em Panambi. E foi aí que descobri que eu era diferente dos outros. Eu era gago. Muito gago. Na aparência normal, no trabalho e estudo, normal. Mas no falar uma grande dificuldade. Dou graças a Deus que não me lembro, de alguma vez alguém ter tido preconceito comigo por causa deste fato. Nem na escola, nem na igreja, nem entre os vizinhos, nem jogando futebol com os vizinhos. Era igual. Mas, para mim eu não era igual. E isto fez com que fosse muito tímido. E tinha vergonha de falar gaguejando. Lembro que até para marcar o curso de datilografia, algum dos meus irmãos precisou ir, porque eu tinha vergonha. O curso fiz com facilidade. Depois de aceitar Jesus como meu Salvador pessoal, tive outros objetivos na minha vida. Alguns me fizeram ser um pouco mais solto. Mas eu continuava “o gago” para mim. Pedi a Deus que Ele me tirasse a gagueira, pedi em nome de Jesus, mas ele não tirou. Ainda jovem li ou estudei alguns livros da biblioteca da mocidade da igreja. Eu queria mesmo servir a Deus.

Um dia apareceu um irmão da igreja na casa dos meus pais. Nós morávamos na roça. Por que será que ele veio. Eu estava no pátio da casa e minha mãe que estava mais próxima, foi recebê-lo. O objetivo dele ter vindo na casa dos meus pais, era para saber se eu não gostaria de trabalhar na empresa que era dele e outros sócios.  Já viram um dono de empresa procurar um empregado? Claro que eu queria, apesar de ter trabalhado em algumas empresas, meu principal trabalho até ali tinha sido na roça. E lá fui eu para o emprêgo, gago. Deus havia começado a agir.

Comecei trabalhando num setor onde trabalhava sozinho. Ou numa máquina de solda ponto, ou numa prensa. Algum tempo depois recebi um colega para compartilharmos deste serviço. Ali aconteceu uma das coisas mais importantes da minha vida espiritual. Não lembro o motivo porque eu havia feito algo de errado para com o meu colega, que também era membro da mesma igreja. Mas eu sabia que precisava pedir perdão. Como foi difícil pedir perdão. Levei algum tempo para tomar coragem e fazer o pedido. A vez seguinte já foi mais fácil. Hoje quando vejo que estou errado, peço perdão sinceramente.

Depois de algum tempo fui transferido para a funilaria, onde tive cerca 12 colegas. Isto é, o meu mundo de comunicação estava aumentando. Claro que era obrigado a ter contato com outras pessoas, mas grande parte já conhecida. Neste tempo já cursava o curso de Técnico em Contabilidade no Colégio Evangélico (luterano) de Panambi. O professor de classe era o Contador da empresa na qual trabalhava. Minhas notas, antigamente, não eram boas, mas agora eu tinha um objetivo, e assim ficava entre os primeiros alunos da classe. Ao distribuir os boletins com as notas, o professor viu que eu era um bom aluno. Em duas semanas estava trabalhando no escritório, ainda gago. Foi ali que aprendi a atender telefone. Ficar rodeado de pessoas que eram mais importantes do que eu, mas que aos poucos foram se tornando semelhantes.

Um dia houve mais uma das reuniões que eu não sabia com que frequência eram realizadas. Mas o meu chefe me confidenciou, que eu fora muito prejudicado por um chefe de outro setor. Humanamente até poderia ser, mas eu aceitei como normal. Fui transferido para a loja. Alguém diria: Cada vez mais perto da porta de saída! Mas não era isso. Cada vez em contato com mais pessoas. Não era balconista, era gago. Calculava os prêços das mercadorias vendidas na loja, e colocava o prêço, ou no livro, ou nas peças através de etiquetas. Quando lembro desta sequência, eu não o sabia naquele tempo, mas hoje vejo que estava no último estágio de um curso de preparação para ir ao Seminário, que era o meu objetivo, porque sentia que Deus o queria. Terminado o segundo grau, pedi demissão, e falei com o mesmo irmão na fé, que tinha ido na casa dos meus pais e perguntado se eu queria trabalhar na empresa Kepler Weber S/A.  Eu era gago. Por que? Porque a facilidade seduz. Sei que tinha capacidade mental, uma boa memória, e poderia fazer carreira em qualquer empresa com um bom salário, mas gago? Certa vez indo ao Colégio acompanhado de um colega de turma, ele perguntou: “Mas como você vai ser pastor, se você é gago?” Eu respondi confiando em meu Deus: “Estás vendo esta pasta aqui? Quem a fez não poderia mudá-la?” “Sim.” respondeu ele, e concluí: “Pois bem, Deus que me fez, também pode me mudar.”

Fui para o Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, no Rio de Janeiro. Comecei como todo novato. Tendo dificuldades numa cidade tão grande. Mas estudava com interesse. No terceiro ano os alunos precisavam escolher uma área de especialização. No ano em que comecei a estudar, o Seminário começou com a primeira turma da noite. Porque digo isso? Porque eles estavam no mesmo estágio da turma da manhã. Então, pela manhã escolhi a área Bíblico Exegética para especialização, e queria fazer também a área Teológica  Filosófica, mas como? Pela manhã, além dos cinco que escolheram a mesma área que eu, todos os outros escolheram a área Pastoral. Mas toda a turma da noite, escolheu a área Teológica Filosófica. Assim pude fazer uma área pela manhã e outra  à noite. Será que tudo estava acontecendo assim por minha causa? Isso é querer demais. Ou não? Eu só sei que ainda era gago.

Durante o início do curso um grupo de irmãos da Igreja Emanuel em Panambi, fazia coleta de alguma verba para pagar para mim um tratamento psicológico e de logopedia. O tratamento psicológico foi só de 4 meses, e o logopédico por 10 meses. Não sei quanto isto influiu em alguma mudança. Sei que no final do último ano, a minha fala havia melhorado bastante. Continuava tímido, mas me valorizava mais apesar da gagueira. Nestes quatro anos, preguei em diversas igrejas, e sempre recebi apoio, o que certamente me ajudava.

Quando comecei a pregar na primeira igreja que iria pastorear, só quem sabia da minha situação é que ainda notava problemas na minha fala. E esta igreja também fora preparada por Deus para mim. Seminarista da Convenção Batista Pioneira do Sul do Brasil era ajudado financeiramente no pagamento ao estudo e à alimentação, e ainda sobrava um trôco. Por isso ele tinha o acordo verbal que depois de formado voltaria para trabalhar na Pioneira. Esta era a única igreja sem pastor, e eu era o único formando que precisava de uma igreja. Todos que me conheciam, me conheciam como gago. E a igreja, mesmo não me conhecendo pessoalmente, certamente fora informada pelo secretário, das minhas condições, ou que ele imaginava que fossem as minhas condições. Isto significa que não fui recebido muito bem. Claro qual é a igreja que vai gostar quando um pastor lhe é imposto. Ficamos, eu e minha esposa, mais de dois anos trabalhando neste lugar com muitos frutos para o reino de Deus. Foi neste período que comecei a fazer o curso de Mestrado no mesmo Seminário, na área Teológico Filosófica. E foi no segundo ano nesta igreja que recebi a visita de um líder da Pioneira, pedindo para que parasse de fazer o mestrado, pois isto estava interferindo na visitação aos membros. Engraçado, no segundo ano, conseguia visitar mais do que antes por conhecer melhor o lugar e os membros. E fiquei perplexo que alguém que já devia ter vários doutorados, viesse me pedir para não fazer o mestrado. Possívelmente, ele ainda me via na roça.

Resumindo: Depois trabalhei interinamente, na Primeira Igreja Batista de Santo Augusto, por um ano, planejando já voltar para o Rio, onde sabia que sempre havia várias igrejas sem pastor. Sendo membro da PIB Bangu, comecei a trabalhar na Congregação da Cancela Preta, que logo foi organizada em igreja, onde fiquei mais de seis anos. Com um intervalo de dois anos, comecei a trabalhar (claro junto com a esposa e agora dois filhos) na Primeira Igreja Batista de Urucânia, onde ficamos onze anos.

Mas ainda faltam espinhos e rosas.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: